terça-feira, 14 de julho de 2009

O que mais você quer?


" Nada é tão comum quanto resumirmos a vida de outra pessoa e achar que ela não pode querer mais.


É quase um pecado confessar: sim, quero mais!


A cada manhã exijo ao menos a expectativa de uma surpresa, quer ela aconteça ou não. Expectativa, por si só, já é um entusiasmo.


Quero que o fato de ter uma vida prática e sensata não me roube o direito ao devaneio. Que eu nunca aceite a idéia de que a maturidade exige um certo conformismo.


Quero uma primeira vez outra vez. Um primeiro beijos em alguém que ainda não conheço, uma primeira estréia em algo que nunca fiz, quero ter sensações inéditas até o fim dos meus dias.


Quero ventilação, não morrer um pouquinho a cada dia sufocada em obrigações e em exigências de ser a melhor filha do mundo, a melhor namorada do mundo, a melhor qualquer coisa. Queria não me sentir tão responsável sobre o que acontece ao meu redor. Compreender e aceitar que não tenho controle nenhum sobre as emoções dos outros.


Me permitir ser um pouco insignificante. E na minha insignificância, poder acordar um dia mais tarde sem dar explicação, conversar com estranhos, me divertir fazendo coisas que nunca imaginei, deixar de ser tão misteriosa pra mim mesma.


O que eu quero mais? Me escutar e obedecer o meu lado mais transgressor, menos comportadinho, menos refém de reuniões familiares, namorados e afilhados e festas e despertadores na segunda-feira de manhã.


E quero mais tempo livre. E mais abraços. E receber mais flores.


Pois é, ninguém está satisfeito. Ainda bem. "


[Martha Medeiros, colunista do Jornal O Globo]

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